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Rainier e Vítor

25102018

Há uns meses atrás estive em Belo Horizonte, minha cidade natal, munido de uma câmera analógica e algumas horas livres para fotografar. Conheci o Vitor e o Rainier por Instagram, e numa tarde fui até a casa de um amigo deles, aonde cliquei as fotos. Das possibilidades que emergem desses encontros, uma delas foi a falha mecânica da câmera – fotografar com filme também tem seus percalços. Ainda sim, a nossa tarde rendeu mais de vinte fotografias que registraram um pouco do nosso encontro, e de como é esse casal.

1. O que é ter um relacionamento gay para vocês? 

Vítor: Para mim ter um relacionamento gay vai além de estar com alguém, acho que diz muito sobre quem sou e o que penso. Nosso movimento é uma luta, e acaba que o nosso relacionamento também se torna uma forma de resistência. Acho que cria uma forma de suporte com alguém que entende as nossas dificuldades, sejam elas familiares, do dia a dia e/ou profissionais, e te apoia. E isso é incrível porque você não só cresce como pessoa, mas como resistência, o que acaba ajudando no autoconhecimento e autoaceitação de uma forma muito mais gostosa. É como se a outra pessoa te desse um incentivo pra você ser quem você é e isso é maravilhoso.

Rainier: Atualmente, meu pensamento trata isso com tanta normalidade, pois é normal. Passamos as mesmas barras que todo casal passa, só tem o plus do julgamento no mundo exterior (ao qual não ligo tanto assim), as vezes é difícil ser um casa gay em meio a tantos ódio e homofobia.

2. Como vocês enxergam/pensam relacionamentos, o amor hoje em dia?

Vítor: Primeiramente vejo o relacionamento como uma amizade, em que o diálogo, a conversa e o companheirismo vem sempre em primeiro lugar, acho que isso ajuda a levar as coisas com mais tranquilidade, mais afeto e auxilia na hora de um se adaptar e conhecer o outro. Segundo, vejo ele como troca, porque querendo ou não você aprende coisas e pega algumas manias e jeitos do outro e acaba aderindo ou modificando hábitos na sua vida que não existiam antes. E por último, conclui de uns anos pra cá que amor não se procura nem obriga, ele aparece, e é tão bom quando ele chega de surpresa sem pedir licença, sem expectativa, e que quando eu me vejo nele me entrego até onde ele for, porque é incrível.

Rainier: Dizem que o amor e as relações não tem que ser complicadas, especificamente para serem boas, mas acho que tudo que passamos gera uma construção de caráter e maturidade em ambos, não é fácil sustentar, pois o amor é só um ponto entre vários que nos rodeiam para a construção de uma relação que funcione, com confiança e apoio.

3. O que vocês pensam sobre monogâmica, políamor e relacionamento aberto?

Vítor: A maioria dos meus relacionamentos até agora foram monogâmicos, mas do ano passado pra cá tenho me sentido mais a vontade de experimentar outras coisas. Descobri que por agora não me sinto bem com relacionamento aberto e poliamor. Eu e Rani chegamos a ficar com dois caras em rolês por uma decisão de momento e conjunta, mas por causa de problemas de relacionamentos passados meus, me retrai e pedi um tempo pra me recompor e a gente crescer juntos nisso. Não foi uma decisão final, até porque monogamia me incomoda muito, principalmente o termo em si, nomenclaturas me incomodam muito pelo peso que trazem. Tenho evoluído nesse ponto com a ajuda dele e da minha terapia, e já me sinto disponível para tentar algo daqui um tempo. Acho incrível pessoas que se amam e que vivem essas coisas juntas, porque vejo eles como um casal unido, que não se prende ao padrão e que um entende até onde vai o espaço do outro e se respeitam. Não vejo como uma forma de “escapulir” ou de pular a cerca de forma avisada/combinada, mas de entender que o cotidiano e a comodidade podem trazer um desânimo e que uma novidade às vezes ajuda a apimentar as coisas. Mas ainda sinto uma necessidade de conversa para que não haja brechas pra uma briga ou desavença por isso. O meu lado libriana sempre preza pela paz entre os dois lados.

Rainier: É um assunto difícil pra se abordar hoje em dia (não pra mim), por ser considerado anormal, mas me sinto muito confortável com isso, mesmo tendo tido apenas uma experiência.

4. Vocês já se permitiram viver alguma aventura/momento sexual/amoroso diferente que lembra?

Vítor: Acho que pra mim as coisas vão muito de momento, de sentir vontade e de estar à vontade com a pessoa, já fui muito caretão, de ser muito monogâmico e possessivo, só fazer determinadas posições no sexo e não tentar aventuras ou aproveitar as oportunidades. Mas isso cansa e sendo sincero me sinto seguindo um rumo igual à dos meus pais, dessa coisa meio casal que vive pro resto da vida no mesmo, sem tentar inovar a relação. Mas ultimamente tenho experimentado mais coisas, pra matar a curiosidade mesmo e saber o que realmente curto e sinto. Posso afirmar que nunca me vi tão disposto e aberto a coisas novas igual agora com o Rani, acho que vai muito de me sentir seguro e estar com alguém que tope arriscar e entender o tempo do outro, além é claro de muita conversa. Já fizemos algumas coisas juntos e existem planos pra tentar outras, mas a gente tem essa mania de se olhar e num momento de loucura e apenas fazer, pra no dia seguinte um lembrar o outro e passar um momento juntos rindo, zuando e pensar na próxima oportunidade.

5. Como você vê o nosso período/contexto em que vivemos em relação a liberdade, empoderamento lgbt?

Vítor: Posso dizer que estou muuuuuito confiante e feliz como o nosso movimento crescendo e conquistando espaços nunca antes vistos, mas ultimamente aquela sensação de medo e repressão tem voltado um pouco. Nunca fui de me sentir chateado com olhares e palavras das pessoas, ainda mais morando e estudando arquitetura em Ouro Preto, em um ambiente que não é/era muito aceitável a nossa presença, mas ultimamente tem dado medo mesmo. Depois de me conhecer e me entender e, principalmente, assumir para os pais e irmã, nunca me privei de ser quem sou, mantenho meu estilo, minhas roupas, meu jeito, o meu amor pelo boy publicamente e principalmente as minhas unhas, que amo e cuido porque fazem parte de mim. Enquanto eu me sentir seguro pra mostrar pro mundo quem eu sou e porque eu vim aqui eu vou manter, não consigo esconder a minha verdade porque me sinto retrocedendo a uma época em que escondia a verdade de mim mesmo, e isso machuca, e muito. Confesso que já tive conversas com Rani, alguns amigos, meus pais e minha irmã sobre a possibilidade de mudar de país caso a situação aqui se torne insustentável depois da eleição, mas essa é uma decisão muito difícil, por ter que largar faculdade, família, amigos e a luta por aqui, pra poder começar a vida em algum outro lugar que não conheceria ninguém e teria que começar do zero, meio incerto né?! E isso dói, pq aqui é onde eu nasci e onde eu quero me sentir bem da forma que eu escolher ser e nada além disso. Aliás, #elenão

Rainier: Estamos num momento critico, no Brasil principalmente. Vivo com medo, mas essa é a hora de darmos as mãos e lutar com perseverança e amor a tudo que vá contra nós. Mais do que nunca vejo gays, bissexuais e transsexuais lutando, tirando força um dos outros, seguimos tentando não abaixar a cabeça, mas sim enfrentar de frente do jeito que somos, como sentimos e vestimos também. #elenao

6. Relacionamentos antigos de vocês, alteraram como são hoje e como se relacionam um com o outro?

Vítor: Posso afirmar com certeza que sim, e isso tem sido uma barra ultimamente. Já tomei muito na cara com relacionamentos antigos e confesso que também já fui babaca, mas por outro lado já conheci pessoas incríveis que levo comigo até hoje. Sou muito grato ao meu primeiro namoro, aprendi muitas coisas e me conheci de uma forma muito forte, eu em 2014 e eu agora são duas pessoas totalmente diferentes, tanto visualmente quanto intelectualmente, e sou muito grato por isso. Mas o que incomoda hoje em dia é a insegurança que adquiri, tenho trabalhado ela muito com o Rani, porque o acaso me apresentou uma pessoa que tá aqui pro que for preciso e que topou esse rolê de estar junto, mas as vezes algo lá dentro me grita que é mentira ou que tem algo de errado, e mesmo que eu saiba que não é bem assim, às vezes esse sentimento toma força e faz mal, tanto pra mim quanto pra ele. Mas sempre conversamos muito sobre isso e sou EXTREMAMENTE grato por ele estar do meu lado e me apoiar e ajudar mesmo que seja difícil pros dois lados lidar com isso. Por isso que eu sempre digo que a gente carrega um pouco de cada relacionamento que tivemos dentro de nós, seja ele rápido ou longo, bom ou ruim, querendo ou não tem um pouco do embuste e do crush dentro da gente como forma de aprendizado e crescimento.

7. Como vocês se vêem no futuro?

Vítor: Aprendi que o futuro é muito incerto, e que ficar pensando e sonhando demais nele pode ser pior, porque existe a possibilidade da queda ser maior. Lógico que tenho vontade de formar logo e poder juntar minhas coisas com as do Rani num cantinho nosso com muita planta, comida, um bichinho e muito amor, mas eu prefiro aproveitar cada dia com ele como se fosse o primeiro, poder curtir nossos momentos juntos, criar nossas manias, nossas piadas e brincadeiras, e quando for dormir ter a certeza de que to com alguém muito especial e que no dia seguinte coisas novas virão pra acrescentar o nosso relacionamento e que as conquistas diárias vão ter uma recompensa muito melhor e mais satisfatória do que aquela que a gente sonhava.

Rainier: O futuro está incerto pra mim, e creio que pra muita gente também. Vivemos num momento de caos na política, e com as pessoas cada vez mais cegas diante de tudo que acontece. A longo prazo tenho fé que prosperarei no que seguir, e talvez nem esteja mais no Brasil.