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Oscar + Caio

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER + RODRIGO LADEIRA

31102017

Tomamos rumo à Belém no final de 2015. Não cabia mais ansiedade dentro de nós dois: ao ver da janela do avião os extensos rios, as florestas fechadas, e afora do aeroporto, a brisa do calor iminente, fomos tomados de paixão em pouco tempo. Recém chegados no hotel, um dos chicos que viríamos a fotografar, o Oscar, nos levou em um rápido tour pelas ruas do Centro e do Reduto de Belém. Tomamos cachaça de jambu e comemos um típico açaí no Ver-o-Peso; logo em seguida já estávamos fotografando os primeiros belenenses – a maioria deles ao som de Jaloo, músico paraense que já conviveu há tempos com vários destes Chicos e conosco, nos nossos fones de ouvido, há pelo menos uns meses.

Ainda estamos a descobrir se há um sotaque mais lindo que o deles e, se é que existe, há de estar por estas regiões mesmo.  Para o ensaio desse antigo casal, o Oscar e o Caio, fomos nos encontrar no último dia , no Parque Utinga. Lá, adentramos através de um buraco no muro, já prestes a escurecer, e fotografamos ambos andando de skate por uma via encoberta de floresta amazônica; nós dois, impressionados com a densidade e imponência da floresta, fomos surpreendidos com uma frase (que tornou-se a preferida desde o início do projeto) proferida pelo Oscar: “é amazônia, meu bem, ‘deitas’ pra ela!”. Dizer até logo para Belém foi uma tristezinha – levamos a saudade, o som de Dona Onete, a cachaça de jambu, e os sabores na ponta da língua.

Caio: “Ser gay faz parte da minha identidade, que está sempre em construção, na busca de maturidade, de autoconhecimento e crescimento pessoal. Na forma como me visto, conhecendo pessoas, vivendo situações. Há quem tenha uma noção mais definida da sua identidade, o fato é que ninguém escolhe ser mais “macho” ou mais afeminado.”

Oscar: “Ser gay pra mim significa todos os dias acordar e viver meus dias exatamente como sou, como falo, gesticulo, visto e trejeitos sem abrir mão da liberdade que construí ao longo dos últimos 6 anos. Liberdade essa que me deixa dialogar de forma transparente com meus pais e amigos. Por muitos anos o preconceito mascarado – piadinhas – fez parte da minha vida e quando pude entender a importância de assumir minha identidade em todos os sentidos, para mim mesmo, percebi quanto tempo fui infeliz. Hoje, ser gay para mim é entender que sou bixa em tudo que me propuser fazer e realizar. Sempre que subo no skate pra competir ou me divertir boto na cabeça que ali tem uma bixa que ainda vai voar muito.”

Caio: “Ser bicha em Belém é bem babado, o calor frita muito a cabeça dos macho que são mordido com a liberdade das gay. Estamos conquistando sempre espaço nos rolês normativo, mesmo que aos poucos, invadindo e tomando posse do que é nosso.”

Oscar: “Por aqui ainda existem muitos lugares onde a palavra que vale é a do “sinhôzinho”. Com isso, a violência e agressões físicas às bichas são frequentes. Sendo assim, nossa única opção é resistir. Existe resistência LGBTQ na Amazônia.”

Caio: “Me assumir pra família não foi tão difícil, foi só uma confirmação do que todos já sabiam. Tenho muita sorte de ter representatividade LGBT na família. Cresci dentro da casa da minha vó, que teve 12 filhos e criou cada um com muito respeito e igualdade. Nunca me senti num armário, nasci pendurado numa arara.”

Oscar: “Difícil pra caralho. Demorei pra entender meu papel de bixa com meus amigos, mas foi muito mais doloroso o processo com minha família (que acontece até hoje). Minha família é dividida entre as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belém e minha criação fragmentou-se entre essas 3 cidades, evidenciando uma pequena confusão na construção familiar que tive. Há 7 anos descobri que curtia garotos, me lancei e fui percebendo que quanto mais experimentava, mais curtia. Meus amigos foram descobrindo aos poucos, e logo em seguida minha família também. Hoje tenho uma relação de intimidade profunda com minha mãe, que é a familiar mais próxima e que mora em Belém. Em maio de 2017 fiz minha primeira viagem ao Rio de Janeiro sendo bixa – visitando a família – e adivinha? Quase todos já eram de boas com a informação.”

Caio: “Minhas primeiras experiências foram desde muleque, no interior onde nasci, sempre fui uma criança coroinha viada que performava Lacraia na frente da família, com um pedaço de tecido fazendo a saia e outro um top.”

Oscar: “Minhas primeiras experiências gays não foram muito boas enquanto lembranças por muito tempo. Me apaixonei pelo primeiro cara que tive a oportunidade de beijar, mas ele era um babaca na época. Depois disso vivi um triângulo amoroso aos 18 anos e essa foi uma das experiências mais surreais e deliciosas que pude ter. Me descobri aos 17.”

Caio: “Já fui agredido verbalmente inúmeras vezes, na rua diretamente, no trabalho indiretamente com piadinhas homofóbicas. Lembro de ser ridiculamente xingado e ameaçado por um boy escroto qualquer, num dia cedo voltando pra casa. Minha única reação foi chorar muito e sentir medo de sair na rua, mas diariamente a gente vai lidando com os olhares tortos das pessoas em nossas direções.”

Oscar: “Quando participei de um coletivo de skatistas que se reunia pra praticar manobras de rua diariamente fui vítima de outros caras homofóbicos que não conseguiam associar o fato de uma bixa também ter interesse de conquistar seu espaço na cena skateboard. Curioso é que um desses caras, passado um tempo, quis transar comigo repetidas vezes.”