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Marcelo

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER   |  TEXTO: MARCELO SILVA

08112018

Em uma visita a minha cidade natal, Belo Horizonte, aproveitei um dia livre para fotografar para o projeto. Conheci o Marcelo pelo inbox do instagram do Chicos, onde ele contou um pouco da sua história e o encontrei logo depois de um ensaio que fiz pela manhã. Temos retomado o projeto com o intuito de falar sobre amor e relacionamento, histórias que vivemos ou estamos vivendo e nos marcam de alguma maneira, nos fazem repensar como estamos nos relacionando hoje. A história do Marcelo já se ligou com a história da casa onde fotografamos, que hoje se encontra vazia, e guarda a memória de um tempo intenso e de descobertas. 

“Morei nesta casa em dois momentos da minha vida: quando nasci, até meus pais se separarem e depois quando tive meu primeiro relacionamento com um homem. Como a gente não tinha assumido e a casa estava vazia, mudamos para cá. Ele tinha um quarto montado somente para mostrar aos amigos e familiares nas poucas vezes que nos visitavam.”  
Caminhamos por entre os cômodos da casa, tomados pelo tempo e poeira, sem móveis. “Foi uma época incrível de descobertas e de uma relação de parceria muito forte. Como a casa é longe de tudo, passamos muito tempo por aqui mesmo, ouvindo música, conversando e transando. Era um lugar onde a gente podia ser livre, dentro de casa e no jardim, o que já era um grande passo.”
À medida que íamos fotografando, ele me mostrava os cômodos da casa. Perguntei como foi até o fim do relacionamento. “Quando terminamos, esperei mais alguns meses aqui, sozinho, pensando que conseguiria fazer ele voltar. Achava que se eu saísse daqui, não teria como explicar para as pessoas porque eu tinha saído e voltado de novo, quando ele voltasse, e isso significaria os dois se assumirem, ou seja: um passo muito maior e improvável do que só voltar a namorar na situação anterior. Obviamente, isso tudo não me fez bem. Porém, a solidão foi o empurrão que eu precisava pra contar para as pessoas que eu mais me importo sobre o segredo que eu havia guardado ha tanto tempo: sou gay, estava ha um ano namorando aquele rapaz, que todos pouco conheceram, e ninguém sabia o quanto eu estava sofrendo sozinho aqui nesta casa.”

Um tempo depois das fotografias, quando já reveladas em laboratório, perguntei sobre outras questões que não envolviam a vivência da casa. A que mais gostamos de perguntar, como cada pessoa se identifica e como ela se entende como LGBT:
“Entender e me assumir como gay foi algo que demorou um tempo. Embora eu me lembre de ter tido paixões por garotos quando novo, nada nunca se concretizou, e eu também tinha paixões por garotas. A primeira vez que eu transei com um homem não consegui dormir, fui para a porta da faculdade e fiquei lá das 4 às 7 da manhã, dentro do carro, assustado, com uma sensação de culpa absurda.Cheguei a ser noivo de uma mulher e tinha certeza que iria me casar. Ela, a Fernanda, é uma pessoa maravilhosa e tínhamos um relacionamento incrível. Eu já tinha tido algumas experiências com homens, porém nada muito marcante. O problema é que o desejo aumentava cada vez mais, e uma vontade de descobrir se não tinha mais nada por aí. Até que um dia eu tive o sexo que eu desejava com um homem e a partir daí as coisas mudaram muito na minha cabeça. Foi uma época muito perturbadora e difícil, tinha não só que me assumir gay, mas também terminar um relacionamento de 6 anos do qual eu não tinha nada a reclamar. Na verdade, eu me considero bi, porém eu sempre digo que sou pelo menos 80% gay: prefiro ter uma relação longa com um homem do que com uma mulher. Talvez seja parcialmente pelo que aconteceu, de ter tido uma relação onde tudo dava certo, e ter acabado desistindo dela por querer ficar com homens, e um medo de estar me enganando se eu estiver com uma mulher, e fazer tudo de novo.”

“Foi mais difícil me aceitar como gay do que contar para os amigos. Ok, o primeiro foi bem difícil, o segundo também, mas depois que eu já havia verbalizado para outras pessoas, começou a ficar mais fácil – hoje tenho até preguiça de contar para as pessoas. Acho que as primeiras vezes são mais para nós mesmos do que para os outros. Tive sorte, claro, pois meus amigos todos têm mente aberta, mas acho que a idade que eu sai do armário também ajudou de certa forma. Acredito que se fosse aos meus 15 anos poderia ter sido excluído do meu círculo de amizades que era composto somente por homens héteros, afinal, será que eles iam querer andar com o ‘viadinho’?”

“Acho que mudei bastante depois de me assumir, me sinto mais tranquilo, pois era horrível ter uma vida dupla, escondendo coisas de pessoas, da família, contando casos e omitindo detalhes. Era uma vida que me cansava bastante. Na verdade, ainda ocorre de vez em quando, ao conversar com pessoas que eu não conheço, que eles assumem que eu sou hétero e acabo escutando os velhos comentários idiotas que escutei toda minha vida por não ser afeminado. Acho isso curioso: quem é afeminado sofre um preconceito mais direto, porém eu sempre me sinto mal ouvindo o que as pessoas realmente pensam, já que acham que eu sou hétero e se sentem à vontade para fazer as piadinhas ou soltar seus preconceitos naturalmente. Isso dificultou bastante eu me assumir.”
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Perguntei depois como ele vê os relacionamentos/amor nos dias de hoje, depois de todas essas experiências:
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“Por um lado temos mais facilidade e liberdade para nos relacionar, não temos que casar cedo como nossos pais. Mas, por outro lado, sinto que as pessoas se esforçam pouco para ficarem juntos, pela facilidade aparente de se ter outro relacionamento (pouco profundo) com o próximo da fila.
Os pais de um amigo meu que são minha referencia de uma relação longa e feliz, ao me ouvir confessar que queria ter um relacionamento igual ao deles, choraram, e me responderam “Olha, foi muito, mas muito difícil chegar até aqui, várias vezes pensamos em desistir. Chegamos a acertar o divórcio, mas voltamos atrás e lutamos para ficarmos juntos”. Foi uma fala muito linda e marcante, para mim, me mostrou o tanto que a gente não se esforça tanto para passar pelas dificuldades de um relacionamento.”

Perguntei depois a respeito de formatos de relacionamento, como ele enxergar isso: “Eu sou bem aberto a tudo. Na verdade, o que eu sempre procuro é a sinceridade e a igualdade: não quero ser superior nem inferior na relação. Para mim, isso que é ser parceiro de alguém. Consigo me imaginar em várias formas de relação, embora eu nunca tenha de fato tido uma relação de poliamor, por exemplo. Já a monogamia eterna acho difícil. O começo pra mim provavelmente seria monogâmico, para os dois se conhecerem, mas depois se isso se torna um esforço de estar junto, que cada casal se entenda em como resolver essa tensão. Para mim, acho mais fácil transar com outras pessoas junto do meu namorado, para ficar mais claro e que o ciúme venha mais diretamente, e que juntos aprendamos a lidar com esse sentimento de possessão do corpo do outro. Mas cada casal que tem que entender o que vai funcionar, seja a monogamia ou qualquer outro combinado.”


Por fim, perguntei a ele como ele se vê no futuro: “Espero estar casado, e feliz. Uma relação estável e saudável, sou desses grudentos que quero fazer tudo junto, o dia todo, todo dia. Gosto muito da vida a dois, de crescer juntos e de se apoiar nos desafios pessoais e profissionais. Estou, hoje com um boy que conheci há pouco tempo, e com muita esperança de se tornar o amor da minha vida”.