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Lukas

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER + RODRIGO LADEIRA | VÍDEO: GUILHERME SANTIAGO

05012018

conheci o lukas numa das últimas idas à Brasília, dois anos atrás – coincidentemente, o último que fotografamos na cidade. Entramos em seu apartamento, e não me esqueço do cartaz amarelo vivo escrito ‘violência’. Sentamos e ouvimos um pouco da sua vivência: “(…) Eu estava num momento da minha vida que estava experimentando. Tinha depressão e durante a adolescência, sendo uma pessoa LGBT e periférica. (…) estudei num colégio que era muito pequeno, em Goiás. Era muito opressor, a estrutura dele era muito opressora. As pessoas que estavam lá não conseguiam entender a minha vivência, acho que conheci lá somente dois homossexuais e uma lésbica. Então eu não tive muita vivência de representatividade estudando lá. Mas aqui em Brasília eu consegui me encontrar muito mais, porque aqui eu encontro mais pessoas que conseguem ter mais liberdade pra conseguir fazer coisas de forma mais explícita na rua, por exemplo. Eu ando, me porto e me visto, aqui do mesmo jeito que andava em Goiás, só que lá era mais complicado. Bater de frente pra mim é tranquilo, porque eu tive de me habituar a fazer isso.”

Na época, fizemos uma festa do projeto lá em Brasília. Foi o gancho que puxou outro assunto, sobre representatividade: “Festa não foi feita pra gente negra, aqui em Brasília. Você chega numa festa e tá o pessoal,  maioria brancos, escutando música de negro, e tocada por uma pessoa branca, e você vê um negro ou dois além de você ali. E você se pergunta, o que está fazendo ali. Se esse lugar foi feito pra você mesmo, você repara que as pessoas começam a olhar torto, e sou maltratado, e essas coisas influenciam.”

Seguimos para a relação do Lukas com o próprio corpo: “Eu sempre tive muito problema com meu corpo,  porque quando eu era pequeno era muito gordo. Pensava: ‘miga você ja é gordo, é preto, é periférica, é pobre e você é LGBT? Querida você tá fudida’ (…) Eu não consigo ser heteronormativo, isso não funciona pra mim, isso seria triste em mim. Eu fui forçado a vida toda a ser heteronormativo, acho que a maior parte dos LGBTs sofreram com isso. Então isso pra mim é muito militância, a estética, eu como artista plástico, a questão estética é militante sim, e ela pode ser. Ela pode ser inserida em qualquer aspecto que você quiser. Seja na questão Fashion, seja na decoração de casa, por exemplo: alguém que vai entrar na sua casa e vai ver uma obra homoerótica ou  vinculada a política LGBT, vai perceber que aquilo tem uma força e aquilo influencia uma ideia, e que a pessoa que mora naquela casa luta por uma causa.”

“O corpo pra mim ele é meu principal instrumento de militância, meu principal instrumento de ser combativo. O corpo foi algo muito complicado pra mim, ele começou com a consciência de ser uma pessoa negra, o que veio muito recentemente. Meu pai tem ascendência indígena, e ele e minha mãe são negros, mas eles se achavam brancos, e me criaram desse jeito. Minhas referencias todas da adolescência são brancas, acho que inclusive as coisas que eu escutava me embranqueciam muito. Existe uma pedância muito grande na cultura branca de achar que tudo deles é uma coisa boa, então ser gótica na adolescência foi muito embranquecedora. Tinha de alisar o cabelo, tentar parecer branco, emular maquiagem que vão me deixar pálida, ou usar roupas que não são foram feitas pra minha proporção. As referências eram brancas e magras, então isso influencia diretamente no meu comportamento. Quando eu comecei a me reconhecer como negro com meu corpo, inclusive culturalmente, percebi que minha infância e adolescência gritavam muito isso e só eu não percebi. Hoje pra mim é uma das coisas que mais tem ocupado a minha cabeça, inclusive em função da minha mãe. Depois que meu irmão, que tem 17 anos, ele é bissexual, mas não é heteronormativo. A gente chega na sala batendo cabelo, dançando Britney Spears na sala, e aí ele tem a consciência de raça e de classe muito cedo, e ele tem me ajudado muito e minha mãe também, pra conseguir se empoderar, sabe? Mãe, você é negra, você não precisa ficar passando por determinadas coisas, sabe você pode ter consciência disso. Meu pai soltou um dia “você vai deixar seu cabelo cacheado ou liso?” e minha mãe disse “isso importa?” e aí ele disse “eu quero o cabelo dele liso”, e ela “se você quer um menino de cabelo liso, você que se case com uma garota branca”. Nossa querida, eu e meu irmão a gente rodou tanto naquela casa, foi maravilhoso.  Isso me faz muito feliz, me faz querer continuar fazendo o que estou fazendo, e acreditar que isso deve ser certo.”