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Leo

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER + RODRIGO LADEIRA

11092019

Numa terça feira de agosto o Leo nos mandou uma mensagem pelo Facebook (lugar que pouco usualmente estamos). Acompanhava o projeto há um tempo, mas não sentia impelido a conversar ou participar até que passou por uma série de mudanças na sua vida e relação com o corpo – o que motivou a nos escrever. Em um resumo compartilhou conosco um pouco desse último ano, com idéia de alertar e dividir um pouco sobre uma infecção que o acometeu.

Em uma viagem para Belo Horizonte, Leonardo percebeu que havia aparecido umas manchas estranhas em seu corpo, mas como estava viajando acreditou que poderia ser uma reação alérgica a algo que havia comido. Mesmo tendo ido a médicos, feito exames e tomado os remédios receitados para a possível alergia, as manchas sempre voltavam. Um dia ele acordou sem enxergar com seu olho direito e, ao voltar ao hospital, descobriu que estava com o nervo óptico inflamado. Nesta mesma época saiu o resultado do primeiro exame de sangue que ele havia feito desde que as manchas apareceram e foi aí que veio a surpresa: Leo estava na fase terciária de sífilis, o estágio mais perigoso da infecção. O tratamento durou cerca de 15 dias – onde ele ficou recebendo doses de Benzetacil de 4 em 4 horas em uma poltrona de uma UPA do SUS (pois não haviam leitos aonde ele pudesse ser internado por conta de lotação do lugar).”Com o fim do tratamento, fui pra casa, entrei no chuveiro e eu desabei: eu chorei, chorei, chorei feito um bebê de tanto soluçar” ele relembra, contando que durante todo o período ficou se segurando firme. “Eu me esfreguei com muita força, eu deixei minha pele vermelha, porque sentia o cheiro de hospital e eu queria tirar tudo aquilo de mim”. No período de um mês, Leo foi recuperando a acuidade visual do olho que estava comprometido, porém algumas manchas ficaram como sequela. Hoje ele recorre ao uso de um oclusor (tapa-olho) devido a sensibilidade ao sol que causa dores fortes em sua cabeça.

Depois, ele sabia que seguiria ainda com acompanhamento durante dois anos. Em uma dessas consultas reclamou para sua médica de uma dor que estava sentindo nas pernas. Foi aí que descobriram que ele havia desenvolvido uma dor crônica nos nervos da perna e que esta não tinha cura. Agora ele teria que tomar uma medicação específica e fazer fisioterapia para conseguir conviver com essa dor. “Eu repensei tudo, eu pensei “O que eu estou fazendo da minha vida, Onde eu quero chegar? Qual a minha trajetória? Como são meus relacionamentos? Quem são as pessoas que estão ao meu lado? Eu to feliz com o que eu to fazendo? Quem eu sou?”, tá ligado? E foi ótimo, na real foi perfeito. Depois de muito matutar minha cabeça eu comecei a ter minhas realizações. Comecei a encontrar respostas pras coisas e comecei a me entender muito melhor. A minha jornada de cura tá muito ligada também ao autoconhecimento. (…) Pra mim foi um processo muito forte, muito marcante. Eu to hoje enfrentando minha dor, eu to tentando seguir minha vida como eu fazia antes, mas claro que respeitando esses novos limites. Se antes eu não enxergava os meus limites, agora a minha dor é um lembrete constante de qual é o meu limite. Eu posso até psicologicamente achar que eu consigo mas se chega num ponto em que não dá mais, a minha dor me deixa isso bem claro. Então por um lado é um bom aviso, sabe? Pra como eu tava levando a minha vida. É algo que me traz um pouco pra terra e fala: “Léo, vai com mais calma”. E é isso que eu tenho feito.”

“Eu passei a ter muito orgulho do meu corpo. Eu tinha uma auto estima muito baixa e isso mudou muito, por que hoje eu olho pra mim, eu olho para esse corpo e penso “cara, olha tudo o que esse corpo passou. olha o que ele enfrentou. ele conseguiu se recuperar de um bagulho foda”, sabe? eu tenho muito orgulho dele hoje e me amo muito mais por conta de tudo isso. Hoje eu me sinto uma pessoa forte, uma pessoa corajosa, uma pessoa que tem o mundo nas mãos, mesmo que não totalmente mas assim eu sinto que o mundo é nosso, sabe? E que a gente consegue fazer coisas pra mudar ele. Então a grande lição que eu tirei de tudo isso é que a doença me empoderou muito. Eu passei de um ponto em que eu achava que as coisas não tinham jeito e que eu tinha que me adequar pra um ponto onde eu sou mais impositivo, onde eu penso mais em mim, onde eu me cuido mais, onde eu me amo mais.”


Depois ele começou a contar como foi relacionar-se com outras pessoas após o tratamento. “Cara, agora eu sou solteiro, caolho e manco. Que que eu faço? Como eu me relaciono com as pessoas agora? E aí primeiro eu pensei “não vou baixar aplicativo, não vou fazer isso porque já conheci tanto cara bosta em aplicativo não tendo nenhum desses problemas, imagina agora que eu sou LGBT e deficiente físico, como é essa nova identidade, sabe?” Só que depois de um tempo eu pensei assim, na real é ótimo que eu deixe isso bem claro, é ótimo que eu assuma essa identidade por que isso é um filtro maravilhoso na minha vida. A partir do momento que a pessoa olha pra mim  e ela sabe que além de ser gay eu sou deficiente físico, ela pode me encarar como uma pessoa normal ou ela pode ter N preconceitos, N problemas com a minha imagem, N problemas com a minha identidade. E se ela ter esses problemas, ótimo, vai pra um lado que eu vou para o outro. É melhor pra mim que nossos caminhos não se cruzem. Eu não vou, como eu fazia antes, me portar de tal forma para impressionar o boy. Eu não vou andar rápido e me machucar todo para fingir que eu não ando mancando.Eu não vou sair sem meu tapa-olho e ficar morrendo de dor de cabeça pra fingir que meu olho é 100%, entendeu? Então eu acabei voltando para os aplicativos e meti uma foto minha com tapa-olho e coloquei na descrição “QUASE CAOLHO” e foi um filtro ótimo por que eu conheci uns caras bem interessantes. Já sai com dois caras depois dessa situação e foram encontros bem legais. Eles foram super atenciosos, conversamos bastante e se preocuparam comigo. Então nesse sentido eu sou muito grato por que essa nova identidade casou muito bem com o momento que eu to vivendo psicologicamente como uma pessoa mais empoderada.”