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Ítalo

FOTOGRAFIA E TEXTO: FÁBIO LAMOUNIER  |  VÍDEOS: GUILHERME SANTIAGO

11082016

Logo no primeiro dia em Brasília, eu e o Rodrigo nos separamos – cada um com mais dois ensaios ao longo do dia. Segui pelas ruas da Asa Norte, até chegar no sobrado onde mora o Ítalo. De sorriso e braços abertos, ele me recebeu ali com um (dos vários) copos de spritz que tomaríamos naquela tarde tipicamente quente brasiliense. Entre as fotografias, bebidas, sotaques e risadas, o norte-rio-grandense foi me contando alegre da sua vida pelos lados de lá.

✗ On our first day in Brasilia, Rodrigo and I split the photoshoots – each one of us with two throughout the day. The first one to shoot was Italo. With a big smile and open arms, he received me there with one (of several we would have later) glasses of Spritz that we would drink on that typically hot afternoon in Brasília. Among the pictures, drinks, accents and laughs, he was telling me, very cheerfully, about his life there and when he lived in Natal.

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“Quando você identifica esse desejo, essa atração por pessoas do mesmo sexo, as suas vivências sociais, familiares e psicológicas começam a ser um pouco influenciadas e afetadas por conta disso. E acaba refletindo em vários campos da sua vida: do jeito que você se apresenta para as pessoas, por exemplo. Não que vivemos num gueto, mas por bem ou por mal, ainda hoje isso define algumas coisas na gente, que vai pro até pro campo espiritual, político, estético.” Foi a primeira frase que me contou, quando perguntei sobre as impressões e vivências sobre ser gay. Logo depois, emendei na pergunta sobre como era morar no interior do Rio Grande do Norte para depois vir para o Distrito Federal. “Eu sou do interior do Rio Grande do Norte, depois morei em Natal e agora estou morando aqui em Brasília. Quando você é do interior e você cresce por lá, você fica com aquela preocupação extra de que todo mundo se conhece. Então, se vaza alguma coisa, ou ficam sabendo de algo, mesmo que esteja na cara de todo mundo, você ainda sim passa anos da vida preocupado com o que vão achar. Como quase ninguém se assume, você num sabe quem fica e quem não fica, quem curte e quem não curte. Você precisa de ano de trabalho, de manobras, de cantadas, de sutilezas até conseguir ficar com alguém. Isso é um saco, mas tem gente que morre de tesão nisso inclusive”, me conta entre risadas.

✗ “When you identify a desire/attraction to people of your same sex, all your social experiences, family ties and psychological matters begin to be somehow influenced and affected by it. It ends up reflecting in several parts of your life, like the way you show yourself to people. We don’t live in a ghetto, but, for better or worse, somethings are set because of it, and it goes to spiritual, political and aesthetic things.” That was the first thing he told me when I asked him about the impressions and experiences about being gay.  Then I asked him about how it was to live in the interior of Rio Grande do Norte and then come to the Federal District. “I am from the interior of Rio Grande do Norte, then lived in Natal, and now I’m living here in Brasilia. When you are from a inner city and you grow up there, you get that extra concern that everyone knows everybody. So if some things are ‘leaked’, or they get to know anything – even if it is pretty obvious – you still rather spend years concerned about what they will think of you. As almost no one goes out of the closet, you are never sure of who is gay and who is not, who have sex with men and who doesn’t. You need to spend a lot of time to guess those things until you get laid. It sucks, but I know there are a lot of people that gets even hornier because of it”, he tells me laughing.

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“Eu passei muito tempo com problemas muito sérios, disso de você ser obrigado a conviver com um padrão comercial de estética, de forma, de tudo, e se você não se encaixa naquilo, você se sente excluído. Por exemplo, eu não sou musculoso, então eu não estou na turma das barbies. Minhas barba é grande demais pra estar naquela turma das bichas de pólo com a barba rala – ‘bicha hétera’ como diz minha amiga. Aí também não é grande o suficiente para estar com as hipsters, e poraí vai. Quando viemos da adolescência, a gente vem com uma necessidade de se encaixar. Esse problema durou muito tempo na minha vida, mas hoje já estou com 30 anos na cara e não condiz mais. Eu nunca gostei da idéia de estar dissolvido numa massa, de seguir o mesmo caminho que todo mundo. Acho que você perde a sua identidade, e penso que estamos no mundo, na vida, pra ser único de alguma forma, deixar nossa marca. Assim as pessoas podem te identificar pelo que você é, e não pelo que você acompanha. Essa minha questão do corpo estava um pouco atrasada com esse ideal que eu tenho. Hoje em dia eu acho que já está começando a acompanhar. Eu tento refletir muito sobre isso, tanto no meu dia a dia, quanto na terapia. Não é algo fácil ou que se resolva da um dia pro outro, mas é interessante de se ir trabalhando”.

✗ “I have spent a lot of time with serious problems, for being kinda forced to live within this commercial standard of aesthetics, bodies, everything that if you don’t fit, you are excluded. For example, I’m not beefy, so I don’t belong to the group of strong men. My beard is too big, so I’m not in the group of  gays-with-polo-shirts and wispy beard – the ‘straight fag’, as we call it. Also it’s not long enough to be inside the hipster group, and it goes on. When we are adolescents, we have this huge need of fitting in something. This problem have last long time in my life, but today I am 30 years old and this doesn’t match with me nowadays. I never liked the idea of being dissolved in a mass, and following the same path as everyone else. I think you lose your identity that way, and we are in the world, in life, to be unique in some way, to make our mark. So people can identify you for what you are, and not for what you follow. This issue with my body was kinda late with this whole ideal I have. I try to think about it a lot, both in my daily life, as in therapy. It is not something easy or that solves from one day to another, but it is interesting to go working on it.”

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Depois das perguntas que costumamos fazer, ele começou a me contar vários casos (o que rendeu um vídeo extra no post), enquanto ambos já estávamos embriagados de tantos spritzs. Um deles, sobre um natal que passou com o ex na casa dos pais no interior: “Quando eu já estava em Natal, morei dois anos e meio com um ex. Era época de natal e fomos pro interior passar com a minha família. Começamos todos a tomar vodka lá no alpendre, e meu ex começou a se empolgar, bebeu demais. A certa altura, tava todo mundo lá, ele pega um banquinho, sobe nele e começa a discursar. ‘Porque eu queria dizer a vocês, quero contar, não aguento mais esconder todo o meu amor que tenho por Ítalo. Nós já vivemos como casados desde não sei quando, ele é o homem da minha vida…’ e falou, falou, falou e repetia, e não descia de cima do banco. E todo mundo já com cara de tacho. Primeiro o estranhamento com a situação, depois mamãe foi ficando irritada e sem paciência, de braços cruzados meio bufando, olhando de um lado pro outro. Aí ela solta ‘Tiago deça já daí, deixa de besteira, todo mundo já sabia, cale a boca!’, hahaha”. Quando olho pro relógio, não me surpreendo com meu costumeiro atraso. Despeço-me dele, e sigo pra outro ensaio (o do Petit) – sem saber que nas próximas voltas a Brasília encontraria ainda ele e todos os outros Chicos brasilienses.

✗ After the questions we usually do, he began to tell me several facts of his life (which led an extra video in this post), while both of us were already drunk after drinking so many spritzs. One fact was during a Christmas Eve he spent with his former boyfriend in their parents house: “When I was already in Natal, I lived two and half years with an ex boyfriend. It was during Christmas Eve, and we went to my parents house to spent the night with my family. That night everybody drank a lot of vodka there, and my ex drank way too much. at one point, everyone was fine there, when he picked up a stool, climbed up on it and start saying out loud ‘I wanted o tell you all, I can’t stand hiding all my love I have for Italo. We already live as a married couple since I don’t know when. He is the man of my life… ‘ and talked, talked, talked and repeated, and wouldn’t get down of this stool. Everyone stayed staring at us. First the estrangement with this situation, and then Mom was getting annoyed and impatient, looking from side to side, snorting. Then she said ‘Tiago, get down of this stool please! Stop this foolishness, everyone already knew, shut up!’, hahaha.” When I look at the clock, I was not surprised with my usual delay. I say farewell to him, and went for another photoshoot (to photograph Petit).

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