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Gustava, Claus e Vitor

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER + RODRIGO LADEIRA

23042020

A gente se enrolou, atrasou, mas esse ensaio saiu. Fomos para o Bananada em agosto de 2019, quando ainda éramos livres e nem fazíamos ideia de corona e quarentena. Do aeroporto, passamos rápido para deixar as malas e fomos para a casa do Vitor. Lá estavam: Claus, Gustava e Vitor. Apenas de cuecas e as maquiagens coloridas no rosto, lembro do falsete que demos quando vimos. A gente tinha acabado de maratonar Euphoria e tudo que queríamos era uma bela make no rosto. Elas tavam perfeitas! Passamos a manhã ouvindo suas histórias e registrando essas imagens.

Gustava, 24 anos: “Eu cada vez mais percebo que o termo ‘gay’ em si não me comporta totalmente, por isso eu gosto da identidade bixa preta porque ela me diz muito mais do que a identidade de gay como homem cis, então eu gosto muito mais e me identifico muito mais sendo bicha preta, que evoca tanto a minha existência como conversa com a realidade de outras bichas pretas dessa Goiânia que são nuances muito diferentes de vivência. Tanto por ser bicha preta, pobre, periférica, tudo isso vai movimentando as nossas identidades, possibilitando que a gente se reinvente, por isso essa caixinha do homem gay tá superada.”

Demoramos tanto tempo para fazer esse post, que hoje a Gustava já se reconhece diferente daquela época:

“Da época do ensaio para hoje em dia vários atravessamentos e movimentos se fizeram. Sigo compreendendo bicha preta como essa identidade que não é cisgênera, mas hoje a nomeio não apenas como negação da cisnorma, e sim como um devir de ser uma existência que foge da binariedade de gênero. Me vejo, me transformo então nessa bicha preta que habita um corpo trans não binário.”

Claus, 21 anos: “Eu sempre soube que eu era gay e isso sempre foi muito dado, teve um momento mesmo de me aceitar e tudo mais. Mas o momento que foi libertador pra mim foi quando eu descobri bicha de fato, que eu poderia ser uma bicha afeminada, que usa saia, maquiagem e fazer mil coisas e agregar isso à minha identidade, no meu dia a dia, nas coisas que eu faço, mostrar isso nas minhas relações, esse foi o grande momento em que me assumi. Me reconhecer como boy gay não foi tão libertador quanto hoje que eu digo que sou uma bicha. E eu encontrei nas meninas (Vitor e Gustava) grandes referências.”

Vitor, 22 anos: “Eu sempre soube que era gay. Claro que eu não dava esse nome mas eu via que era tratado de forma diferente pelas pessoas. Eu sempre era a criança que ficava sozinha, inclusive minha mãe me colocou no psicólogo porque achava que eu era antissocial e ela se preocupava muito com isso. Com o tempo, com acesso a internet e mudando pra Goiânia eu fui me apropriando do que é ser gay, do discurso do movimento LGBT e fui conhecendo as coisas. Isso foi mais ou menos em 2015/2016, que foi quando eu conheci as meninas, daí fomos construindo essas identidades muito juntas e com o tempo essa rótulo do gay ficou muito conflituoso pra mim. Há dois anos atrás eu era uma pessoa muito diferente, a forma que eu me posicionava no mundo era muito mais próxima do polo feminino do que é hoje, que deu uma invertida, estou mais próximo do polo masculino mas sem ter abandonado as transformações que ter esse contato com a feminilidade me trouxe também. Hoje eu me identifico como “bicha”, entendo isso como identidade não cis. Não consigo chamar de trans dentro do que eu consigo discutir e entender como transexualidade.”

Gustava: “Ser uma bicha e ser preta é um lugar que trás outras nuances pra gente porque ou a gente é apagada, ou hiper-sexualizada, ou objetificada. Se pra gênero e sexualidade nós já não temos referencial, pra pensar essa encruzilhada com gênero, sexualidade e raça, os referenciais vão só diminuindo cada vez mais. Goiânia é um espaço muito normativo e extremamente branco, é uma das cidades mais desiguais do mundo. Não é uma cidade tranquila para todos os corpos, já fomos ameaçadas de morte na esquina aqui de cima de casa. Então sofremos essas violências todos os dias mas cada vez mais a rede de apoio de pessoas LGBTs tem se fortalecido. A gente já consegue se ver como referências uma das outras, a gente vai percebendo que a nossa existência no mundo vai possibilitando e legitimando que nós possamos existir de fato. Muito desse apoio foi criado no Prepara Trans. Que é um cursinho popular criado no final de 2015, surgiu com o ENUDSG (Encontro Nacional em Universidades sobre Diversidade Sexual e de Gênero), que aconteceu na UFG que é um evento bem importante pra militância LGBTQ, pensando em acesso e permanência na Universidade, e na mesma época estava acontecendo as ocupações das escolas secundaristas e lá conheci o pessoal do Encontro. E assim surgiu a ideia de olhar para outra educação, olhar para outro lugar que intercalasse gênero e sexualidade e pensasse em nossos corpos, sem repetir o que a educação formal já fez com a gente. Nesses três anos e meio de Prepara nós percebemos que não viramos só um cursinho convencional, viramos um espaço real de fortalecimento, de possibilidade e existência pra galera LGBTQ. Construindo novas formas de pensar educação, nossas referências e novas formas de estar no mundo, com uma rede muito mais forte e esse é um espaço que faz Goiânia ficar mais tranquila pra mim.”

Vitor: “A gente forma nossa identidade com o contato com o outro e vamos nos moldando a partir disso e transformando. Quando você assume uma identidade ‘nova’, que nunca foi uma coisa muito nomeada, muito discutido, nunca foi uma coisa canonizada, no sentido de ‘se produzir teorias, arte, literatura sobre isso’ então a gente não tem essas referências e a gente tem que criar essas referências. E eu acho que o Prepara vem muito forte para solidificar tudo isso, que é um espaço que a gente tem contato com outras pessoas que vivem esse mesmo lugar, essa mesma realidade, essa mesma perspectiva política e a gente consegue construir essas referências juntos. Às vezes eu fico pensando a respeito do que é ser gay e como esse rótulo se encaixa ou não pra mim e também esse bug da minha identidade e as vezes eu fico muito perdido em relação a isso mas sempre encontro conforto nas meninas e na galera do Prepara, por que eu vejo que tem outras pessoas que estão nesse espaço nesse ‘não lugar’ e a gente tá tentando fazer esse ‘não lugar’ virar um lugar, que tenha reconhecimento, que tenha gente falando sobre. Inclusive dentro do Prepara a gente começou um movimento de produzir mais sobre a gente, sobre nossa realidade, as coisas que a gente faz e as pessoas que fazem essas coisas, tanto para ter registro e documento quanto para produzir sobre isso e construir realidades muito além do que ta posto aí.”

Claus: “Goiânia tem lugares muito hostis com nossos corpos. Nossa faculdade, por exemplo, é um bom exemplo disso. Um pessoal do Prepara já foi expulso de um bar que foram após uma reunião. Já fomos sacaneadas em uma distribuidora aqui perto que cobrava mais caro da gente. Eu já fui violentado em uma boate daqui e pediram pra que eu me retirasse do local. Hoje (com o Prepara) eu percebo que, apesar de ter esses lugares hostis, esses lugares que meu corpo não é bem aceito, tem outros lugares que eu sou valorizado pela pessoa que eu sou e sou incentivado a buscar uma identidade cada vez mais minha. Eu fico chocado como os vínculos no Prepara são autênticos e como as pessoas se respeitam e respeitam o espaço. Até quando aparecem conflitos a gente tem uma busca por autocrítica muito grande.”