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Guilherme

03012019

Na mesma viagem em que fotografei o Marcelo em Belo Horizonte, também conheci o Guilherme. Há um tempo que já estou acostumado com a cinzura de São Paulo, me surpreendi com o quintal verde e a luz batendo por entre as folhas de sua casa em BH – onde nos dedicamos um bom tempo das fotografias. Mineiro como somos, sentamos na sacada pra tomar um café e bater um papo – aonde faria o primeiro clique dele.

 

A primeira pergunta era sobre como se reconhecia como homem gay. “Ser gay na verdade para mim está diretamente ligado a identidade. Desde que somos pequenos somos bombardeados com um milhão de regras, limites, dentre outras varias formas de castração. ‘Homem não chora!’, ‘Senta que nem homem!’, ‘Homem não faz isso e não faz aquilo’ e blablablá. Definitivamente isso afeta a nossa identidade e como externamos isso. Então todo esse rolê da identidade começa aí, quando você começa a se questionar sobre como se comporta, as coisas que gosta e como você destoa da maioria. Depois que rola o reconhecimento da diferença, seja ela estética, comportamental, etc, acaba que a gente vai buscando essa identificação com o diferente. Eu fui começando a notar que não era só eu que gostava de coisas que eram ditas como ‘coisa de menina’, por exemplo. (…) Ser gay para mim nunca foi oficialmente um tabu já que convivi desde pequeno com um dos melhores amigos da minha mãe, que também é gay. Logo, até mesmo criança eu já via uma maneira diferente de manifestar e sustentar a minha própria identidade nesse amigo da minha mãe. Olhava para ele e me lembro de pensar assim ‘Nossa! Que foda, né? Ele é o que as pessoas chamam de gay (na época eu não tinha consciência do que é ser gay) e tá tudo bem’, sabe? E é isso… ser gay é ser autêntico, é reconhecer e conseguir manter essa identidade perante tudo e todos, sem se preocupar com o olhar do outro para com a gente.”

“Meu relacionamento mais marcante definitivamente foi o primeiro. Gosto bastante de novidades em geral, sejam elas comidas, sensações, filmes… tudo que é novidade me encanta muito. Tenho um fraco pelo novo, admito. Então quando ele me lascou um beijão na boca do nada sem eu estar esperando e já soltando a seguinte palavra ‘Desculpa’, eu já me revirei todo. Até então eu nunca tinha ficado com alguém do mesmo gênero. Não estamos mais juntos há anos, foi uma época um pouco confusa todo esse momento de ‘me assumir’, a família dele era bem religiosa. Terminamos meio que do nada, já que os pais dele eram extremamente contra na época… inclusive, tenho poucas lembranças do momento do término, porque foi muito caótico.

“Amor é lindo né? Nossa… que sentimento. Hoje eu vejo o amor de uma forma mais orgânica e bem menos sistemática. A gente é bombardeado o tempo todo com uma porrada de coisa, tipo que não podemos demonstrar interesse, que temos de ser difíceis, fazer joguinho, sei lá! PORRA! Que crueldade… amor para mim é exatamente o contrário disso tudo. Amor é essa entrega… conforto. Vivemos nessa sociedade meio cinza onde constantemente somos coagidos a não sermos animais… que é exclusivamente o que somos e o amor vem disso, dessa nossa organicidade, vontade de estar junto, de abraçar, beijar e tudo mais. Mas tudo isso se confunde a meio curtidas, mensagens não respondidas, sendo que tudo pode ser bem mais simples do que isso. Sempre comento com meus amigos que a gente às vezes se esquece de aproveitar o melhor da nossa ‘evolução’ que é ser um animal e ter consciência disso, porque quando isso acontece creio eu que as coisas ficam mais orgânicas, menos robóticas e mais genuínas mesmo. Não temos que ter medo desse sentimento, não temos que evitá-lo, muito pelo contrário. Temos que vivenciar todo esse tumulto que nos faltam palavras para descrever de forma assertiva o que é amar.

Seguindo as perguntas sobre amor, perguntei sobre o que pensa sobre relacionamento e diferentes formatos de se relacionar. “Eita! Tenho a seguinte concepção mediante as minhas experiências. A monogamia é um comportamento que eu chamaria de compulsivo… esse medo de perder, de ser traído e tudo mais. Para mim, a monogamia da forma como ela é colocada para gente, é construída na insegurança e na ideia de posse e isso é bem problemático, né? O poli amor eu entendo como o que eu chamaria de mais natural possível, que é o role de amar mais de uma pessoa e amar uma não inviabiliza amar outras, tendo em mente que o amor é livre. Já o relacionamento aberto é uma questão bem particular que diz respeito somente ao casal que adota esse título para o próprio relacionamento, porque relações são tidas às vezes como contratos estabelecidos por duas, três, quatro pessoas. Então o relacionamento aberto é isso… a maleabilidade das cláusulas para o sucesso desse contrato.”

“Temos vivido tempos um pouco sombrios em relação a nossa existência. Não tá sendo fácil. Esse sentimento de apreensão que voltou e tinha um tempo que eu não vivenciava. Em contrapartida, tem muita coisa acontecendo em relação a representatividade, empoderamento… Liniker, Gloria Groove, Quebrada Queer, Linn da Quebrada, Jão dentre outros artistas LGBTQ+ estão aí fazendo e acontecendo, e passando a mensagem que é isso… vai ter viado sim, vai ter sapatão, vai ter trans, vai ter travesti vai ter TODO MUNDO!”

“Corpo é sempre uma questão delicada e muito individual, né? Atualmente, me reconhecendo como um homem gay, cis e preto, tenho uma consciência
um pouco diferente, principalmente em relação a minha etnia, porque existe essa hiper sexualização do corpo preto. Existe essa cobrança muito estranha sobre ser muito macho, muito metedor, com a piroca do tamanho do braço… e é complicado quando você observa no outro esse olhar de fetiche, porque acaba te reduzindo a muito pouco, sem contar que é extremamente racista, né? Sendo um homem gay, creio que é PRECISO falar o quanto é problemático essa fissura com o “corpo perfeito” e como você muita das vezes é automaticamente descartado por não ter um abdômen definido, um peito malhado e bem desenhado, sem contar a piroca que tem que ser a maior do mundo se não não serve. Existe essa gracinha de que quanto maior o pau melhor, né? Convenhamos, todo mundo que transa sabe que não é assim que funciona, mas de alguma forma isso continua sendo propagado.”