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Ezequiel

Fotografia: Rodrigo Ladeira

14122017

Resolvi ir passar uns dias em Manaus em agosto desse ano. Até então não conhecia a capital, tinha apenas ido para Belém e me apaixonado pela região. Nesse curto período encontrei o Ezequiel que junto com seus amigos me apresentaram a cidade e seu entorno. Nunca imaginei ter uma recepção como a deles, todos os momentos e lugares que fomos foram inexplicáveis. Nadar no rio negro, conhecer a floresta e comer tantos pratos que não conhecia.

Logo no primeiro dia, depois de uma tarde de muito calor, resolvemos fazer algumas fotos no pôr do Sol, dentro do quarto do hotel.

“Eu passei a maior parte da vida tentando aceitar a minha sexualidade. Foi bem difícil. Eu cresci com pessoas à minha volta falando que era errado, que não podia, que era pecado. Quando criança, eu só não entendia direito o porquê de não poder ser gay. Quando comecei a perceber minha sexualidade, tudo que falavam vinha à minha cabeça. Não posso. É errado. Afinal, o que eu tinha feito de errado pra eu ser desse jeito? Eu me sentia culpado, achava que ninguém ia me aceitar ou entender o que se passava na minha cabeça. Eu nasci e fui criado num meio cheio de preconceitos. Se eu não tivesse passado por tudo isso, eu talvez hoje fosse só mais um homofóbico que nunca parou pra se colocar no lugar do viado. Acho que ser gay me ajudou a ver o mundo com mais empatia, a ver as diferenças de um jeito mais humano.”

“Hoje em dia eu acho engraçado como eu me assumi para os meus amigos. Eu nunca falei, de fato, pra ninguém que eu era gay. Até o final do ensino médio, eu tinha um plano que pra mim, na época, era infalível: eu ia mudar pra outra cidade pra faculdade, e lá eu ia meio que recomeçar a vida. Sim, escondido de todo mundo, porque eu não ia ter coragem de falar com ninguém sobre. Eu tinha bastante vergonha de ser gay, e nunca tinha ficado com nenhum homem. No final do último ano da escola, fiquei mais próximo de um novo grupo de amigos. A gente começou a sair junto pra festas. Numa dessas, eu conheci um rapaz na fila da festa e a gente acabou se beijando na frente dos meus amigos.  Nunca achei que ia ter coragem de fazer aquilo. Foi uma sensação estranha, uma mistura de medo, desejo, nervosismo. Eu me senti leve depois de fazer aquilo, me senti mais sincero, mais eu. Meus amigos não me repreenderam em nenhum momento, conversaram comigo e me ajudaram muito. Mais tarde, soube que o rapaz não morava na cidade e iria embora no dia seguinte. A gente continuou conversando depois disso, namoramos por um tempo, terminamos e hoje somos bem amigos.
Em casa foi mais difícil. Mesmo depois de ter me assumido pros meus amigos, nunca foi uma possibilidade eu me assumir em casa. Meu pai sempre foi bem homofóbico, isso acabou me afastando bastante dele. Me doeu bastante crescer ouvindo meu pai falar que nunca aceitaria um filho gay. Minha mãe tava viajando. Meu pai havia saído, mas acabou voltando mais cedo. Abriu a porta do quarto e me viu. Estávamos eu e meu namorado assistindo um filme, a gente tava abraçado, eu com a minha cabeça encostada no ombro dele. Meu pai não disse nada na hora, só fechou a porta do quarto e foi pro quarto dele.
Sempre tinha imaginado essa cena de um jeito diferente, achei que ele fosse me bater, gritar, me expulsar de casa. Saí do quarto logo atrás dele, sem saber direito o que falar. Ele tava com uma cara de choro, se perguntando o que fez de errado. A gente conversou, ele não aceitava, disse que eu era uma decepção pra ele, que aquilo não era justo e passou um bom tempo insistindo pra que eu tentasse ser hétero. Os dias seguintes foram um inferno, ele queria passar o dia todo perto de mim, minha mãe depois disse que ele se sentia culpado por eu ser gay, e que se estivesse por perto eu deixaria de ser. Meu pai nunca mais tocou no assunto comigo, a gente acabou se afastando mais ainda. Hoje em dia a gente mal se fala. Com a minha mãe foi mais fácil. Ela acabou voltando antes da viagem pra casa. A gente conversou bastante, ela disse que eu deveria tê-la contado antes. Eu me senti um pouco culpado por não ter falado. No começo ela não aceitava tão bem, mas hoje é bem tranquilo, sempre quer saber com quem eu tô saindo até.”

“Eu tinha 17 anos quando beijei um cara pela primeira vez. Antes disso, eu já sabia que era gay. Mesmo assim eu tentei ficar com meninas, até namorei com uma. Acho que por pressão, eu via os meninos da minha idade ficando com meninas, ninguém nunca tinha me falado que era normal eu sentir vontade de beijar um menino também. Eu sempre soube que era gay, mas levou muito tempo pra eu me aceitar.”

“Meu irmão é um ano mais velho que eu e a gente sempre estudou na mesma escola. Sempre soltavam um viado, bicha e afins. Quando eu tinha uns 13 anos, um amigo do meu irmão disse pra ele que eu sorria demais, e que eu parecia gay. Meu irmão me falou e pediu pra eu rir menos das coisas, porque eu tava parecendo viado. A gente nunca conversou muito, mas eu me senti mal quando ele me disse aquilo. Eu acabei ficando mais travado, comecei a reparar no jeito de andar, falar, não queria parecer gay.”