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Daniel

FOTOGRAFIA: RODRIGO LADEIRA

21052018

O Daniel veio em casa no final de fevereiro, estávamos fazendo alguns cliques para nossa última zine. Topou clicar sozinho e também sair em uma foto beijando o Lucas, um amigo que até então não se conheciam. Depois dos cliques pra zine, ele sentou na mesa e começamos a conversar sobre sua religião, o judaismo, e suas lembranças gays. Entre novos cliques em minha cama e algumas descobertas sobre a cultura da sua família, fizemos os registros desse post.

“Ser Gay pra mim é amar e sentir atração por alguém do mesmo sexo. Um homem gay sente atração por outro homem e uma mulher gay sente atração por outra mulher. Ser gay faz parte de quem sou e não apenas por eu me sentir atraído por outros homens, mas também pela tradução literal da palavra vinda do inglês: ‘Gay’ significa alegre, jovial e proveniente do francês medieval ‘gai’ significa aquele que inspira alegria. E é o que sou, feliz, alegre e colorido, sempre pulando, me mexendo e tentando espalhar esta energia pra todos a minha volta. Sou feliz por ajudar ou outros, sou feliz pelas minhas conquistas passadas, presentes e futuras. Sou feliz por ser quem sou. Sou feliz por ser gay. Sou feliz por ser feliz!”

“Muitos me perguntam como é ser gay na comunidade judaica. A verdade é que não é muito diferente de qualquer outra religião. Há os mais liberais e há os religiosos que falam de casamento, nada muito emocionante ou impactante. Mas nada disso me afeta, eu simplesmente sou o que sou e consigo harmonizar religião e sexualidade, graças a Deus, com o apoio da minha família.
Mesmo minha família sendo tradicionalista (não ortodoxa), eu frequento lugares religiosos e confesso que as vezes sinto uns olhares tortos em minha direção, mas nunca fui destratado, excluído ou rejeitado em algum lugar. Aprecio bastante a religião judaica e creio que a mesma não me rejeitaria. Tive uma aula um dia desses na qual o professor falou algumas coisas preconceituosas, deixando claro que isto era opinião dele e não da religião (que diz o oposto a ele sobre o assunto tratado no dia). Após debater, me senti ofendido e saí durante a aula… meus colegas contaram a ele porquê eu saí e me senti afetado já que não sabia que eu sou gay. Logo em seguida ele foi atrás de mim e me pediu sinceras desculpas, dizendo que vai reaver o que pensa e o que fala e que se eu precisar posso contar com ele. Foi bom, ainda não gosto da aula dele, mas é um grande avanço e sinto que mais uma vez, algum ‘interruptor’ foi acionado na cabeça de mais uma pessoa com a mente fechada. Gosto de pensar nas pequenas diferenças que nós gays podemos fazer nas ocasiões mais inesperadas, nas cabeças mais fechadas e independente das crenças dos outros. ”

“Eu me dizia ‘hetero’. Assistia a pornôs heteros e gays e mesmo assim me dizia hetero (sempre fui iludido mesmo haha). Bom, isso até o final dos meus 17 anos. Eu fazia teatro e lembro como se fosse bem recente: havia um menino… magro, loiro, alegre, gay e assumido. Toda vez que nos víamos ele falava pra mim: ‘Dani, você é um desperdício como hetero’. Claro que aquilo ecoava em minha cabeça e eu gostava de estar com ele, mas nunca tentamos nada. Um dia tomei coragem, montei um texto maior que este aqui pedindo ajuda dele pra eu experimentar ficar com um homem e com medo, enviei a ele por mensagem. Rapidamente obtive a resposta: ‘Bom… claro que ajudo, já disse que você é um desperdício como hetero haha’
Fiquei feliz, nervoso e aliviado ao mesmo tempo. Marcamos e nos encontramos no clube onde fazíamos teatro. Escondidos em uma das inúmeras salas, sentamos: eu no chão e ele em uma cadeira. Ficamos nos encarando e rindo sem graça por alguns minutos, chamei ele pra sentar ao meu lado, nos olhamos e nos beijamos. Seu toque imediatamente me causou arrepios, excitação, ereção e eu sabia que queria mais. Ficamos mais algumas vezes mas não muito mais que um ou dois meses juntos (atualmente somos amigos). Fiquei com mais homens, algumas mulheres e perdi a virgindade, aos 18 anos, com uma delas. Senti que faltava algo. Foi quando conheci um cara no tinder e começamos a namorar, foi minha primeira experiência de penetração com um homem, algumas semanas depois que estávamos juntos, dissemos que nos amávamos ao mesmo tempo e fizemos amor e naquele momento senti, com toda certeza, que era isso que eu queria. O namoro durou um ano e meio, mas aprendi muito e resolvi me assumir GAY.”

“Quando eu era mais novo eu tinha uma certa vergonha do meu corpo… Via alguns colegas com os corpos mais definidos devido a esportes e metabolismo e eu super magro, nada de definição ou músculos, sem peitoral… me trocava escondido de todos. Pêlos começaram a crescer por todo o corpo e comecei a ficar um pouco mais envergonhado, principalmente em casa. Vivia de roupa porque só de o bigode começar a nascer minha família ja vinha falar: ‘owwwn que bonitinho! Ta nascendo! Virando homenzinho!’ e eu não sabia o que fazer além de ficar envergonhado e me esconder debaixo das cobertas.
Fui a uma festa na piscina com amigos e comecei a perceber a diversidade de corpos, diversidade de curvas, pêlos, e que não há do que se envergonhar, aquele dia eu tirei a camiseta sem medo. Fui encorpando com a puberdade, entrei pro teatro, tive uma queimadura de segundo grau nas costas (o que não me permitia usar camiseta) e tudo isso ajudou a me abrir e mostrar meu corpo mais ainda. Comecei minha vida sexual e vi mais diversidade de corpos… os toquei, os senti, os observei cautelosamente. Recebi elogios pelo meu corpo e comecei a entender mais ainda que a insegurança pelo meu corpo não deveria existir pois eu enxergava imperfeições que não existiam. Descobri o nu artístico, achei uma arte belíssima e quis participar daquilo. Chegou um dia que estava fazendo fotos com alguns fotógrafos e modelos e joguei no ar: ‘Quem vai me fotografar nu?!’. Um deles topou e ali, naquele impulso, surgiu meu primeiro ensaio de nu artístico. Naquele momento eu verdadeiramente me expressei, me amei e me libertei. Ainda quero um corpo um pouco mais definido, mas mesmo assim tenho orgulho de mostrar o corpo como é hoje. ”

 “Me assumir pra minha família, foi ao mesmo tempo pior e melhor do que eu esperava. Eu acreditava que minha mãe ia ser aquela que me apoiava e os outros (meu pai, primos, irmãos e todos os outros) iriam me julgar. Mas foi exatamente o contrário. Um mês após ter de fato me descoberto e ficado com um homem (ainda me considerava bissexual) e estava gostando dele, então resolvi contar a minha mãe. No primeiro momento foi um mar de rosas (‘filho, só quero que você seja feliz’ – ela disse), mas alguns dias depois fui julgado como se eu tivesse me tornado outra pessoa. A partir daí a conviviência foi péssima, até que meu irmão descobriu, contei pra minha irmã e eles me apoiaram ajudando a abrir a mente da minha mãe, e realmente ocorreu com o tempo. Comecei a namorar um cara, fomos aos poucos, avançando de dormir em cômodos separados até finalmente poder dormir juntos e minha mãe só se preocupar em falar ‘não esquece da camisinha’. O resto da família descobriu por postagens nas redes sociais e finalmente contei ao meu pai e à minha vó após um ano e, com eles me emocionei e chorei… os dois disseram praticamente o mesmo: ‘você continua sendo você, eu te amo e não importa se você gosta de homem ou mulher porque você é uma boa pessoa! Quero conhecer seu namorado!’
Não me arrependo dos momentos de briga que passei por causa disso, me orgulho e fico feliz pelo que sou, pelas mentes que abri e pela minha relação com a família ter melhorado.”

“Há várias formas de amar. Um amigo, um parente, um animal de estimação, um bem material, um bem emocional ou um(a) parceiro(a). Já amei de todas essas formas, mas a mais difícil, acredito que para a maioria das pessoas, é amar alguém com quem compartilhar a vida. Alguém de fora do seu meio, alguém talvez de outra religião, alguém de outra idade, um estranho com quem se conectar. Eu já amei e sei que foi verdadeiro porque eu não consigo falar que amo alguém sem realmente amar. Foram poucas as vezes, mas creio que com todos é assim. É difícil passar do estágio da paixão com todos com quem nos relacionamos. E como já citado, meu primeiro grande amor foi meu primeiro namorado, isso marca. Uma palavra dita jamais pode ser ‘desdita’. Os sentimento são poderosos e eles não vão embora de forma fácil, sei que amei ele e outras pessoas importantes que passaram em minha vida, mas não sei dizer se deixei de amar. Apesar de brigas, intrigas, alguns tratamentos ruins, resta uma parte (mesmo que pequena) do carinho que se tinha. Uma gota de amor. Uma semente que restou do relacionamento que se tornou fraca e que jamais vai germinar novamente.”

“Sofria bullyng na escola desde a primeira série. O engraçado é que nem eu sabia o que eu era, quem eu era, o que eu queria ou gostava. Era virgem de tudo que se podia imaginar e, mesmo assim, as pessoas sabiam antes de mim. Fizeram músicas em minha ‘homenagem’ e cantavam no dia 24 de todo mês ( ‘Felicidades, felicidades ao dia do Kripka!’ – esta era a letra me homenageando com meu sobrenome). Eu era excluído, considerado ‘aquele que irrita e que ninguém quer ficar perto’, ficava isolado e podia contar nos dedos quanto amigos eu tinha. Cheguei a chorar algumas vezes, mas em casa eu me fantasiava em outros mundos e com isso fugia da realidade, como toda boa criança, e agradeço à minha imaginação fértil que me ajudou a escapar tanto de tudo e todos sem me deixar desmoronar. Aturei tudo isso por anos até a minha primeira transformação: tirei o aparelho fixo dos dentes, troquei os óculos por lentes de contato, a barba começou a preencher meu rosto e eu comecei a me impor. A cada um que vinha me destratar eu já não me encolhia mais, eu debatia e caso não parasse eu empurrava quem quer que fosse na parede, apontava com o dedo na cara e falava com tom firme: ‘Isso tudo já perdeu a graça, é melhor você parar, porque você não tem que cuidar da minha vida e eu já não aguento mais!’. Com o tempo, junto com o amadurecimento de todos fui ganhando amigos, pedidos de desculpas, choros de arrependimento, palavras de respeito e alguns se tornaram amigos que tenho comigo até hoje. Aprendi nesta época que saber ser e defender quem sou é o que faz a diferença onde eu estiver.”

“Eu acredito na arte do nu artísco.
Na Grécia antiga o nu era a representação da perfeição, a materialização dos Deuses, cada um encorporando uma beleza. Por que isso mudou? Por que a maioria das pessoas não conseguem enxergar a beleza desta arte? Por que vêem como pornografia?
Quero mostrar a todos que nu artístico é mais do que isso, mais do que desejos carnais, necessidades selvagens e malícia. Muito mais. É arte, é expressão, é natureza, são curvas, linhas e pontos que moldam um ser que nasce nu, que foi criado nu.
Claro que há o sensual e o erótico, não nego, mas deve-se perceber a diferença entre eles. E acredito que este projeto mostra a essência de cada um, de cada corpo, de cada pessoa, de cada personalidade, de cada pensamento, de cada desejo. Eu acredito nesse projeto e me orgulho de fazer parte, de estar nesta história e de mostrar o que penso às pessoas. Me alegra quando alguém vem me parabenizar e agradecer porque com minhas fotos o(a) ajudei a ser mais confiante, a melhorar a autoestima, a se aceitar. E é isto que eu quero, é nisto que acredito!”