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Bruno e Cris

Fotografia: Rodrigo Ladeira + Fábio Lamounier

04122018

Recebemos os meninos aqui em casa há uns meses já. Atravessaram a cidade e passamos o restante da manhã juntos. Uma das coisas mais incrível em ver nos dois foi a sintonia deles. O jeito de conversar, de discordarem entre si, na forma de se tocarem. É muito claro uma confiança e verdade em cada momento desses entre os dois. As fotos foram feitas de forma analógica em São Paulo e aqui deixo a fala deles sobre amor, relacionamento e sobre si.


O que é ter um relacionamento gay para vocês?

Bruno: “Então, pra mim é um rompimento de barreira. Toda a vida pensei ser errado por pensar que gostava de homens, me sentia culpado, e hoje eu vejo como a consequência da minha verdade, o que me faz mais feliz e verdadeiro…foi muito difícil sair do armário por pensar não só na auto aceitação mas também na rejeição dos outros e hoje eu vejo o quanto é importante esta verdade pra mim, que eu posso me relacionar sim com um homem e ser feliz.”
Cris: “Pra mim foi tudo sempre tão normal que eu nunca tinha parado para pensar nesta questão, pensei e acho que é uma consequência de ser quem eu sou e saber que sou feliz como qualquer relacionamento, que é um aprendizado diário como qualquer relacionamento, é saber lidar com as diferenças como qualquer relacionamento. Mas também é muita luta, muita resistência, o tempo todo gritando “Eu existo, sou feliz e amo como qualquer pessoa!”

O que vocês pensam sobre monogâmica, políamor e relacionamento aberto?
Bruno: Eu acho que o amor é incondicional e incontrolável, se é algo que é conversado antes, e se ambas as partes está tudo bem, então por que não? Tantos relacionamentos acabam por motivos banais que muitas vezes são caracterizados por sentimentos de posse. Se a pessoa quer trair, não adianta, ela vai trair. Mas tudo pode se tornar melhor quando conversado, principalmente quando ambas as partes vem no outro, sentimentos como felicidade e segurança. Quando sentem que não é somente o sexo que segura tudo, e que não existe uma matemática que vai garantir um resultado correto.
Cris:
Como diz lulu santos: “consideramos justa toda a forma de amor”. Tudo que foi conversado previamente entre as partes é válido. O que não pode é mentir e machucar alguém e nem copiar padrões só pra seguir uma “moda”. Um relacionamento, em qualquer formato, deve prevalecer um respeito a todos os envolvidos. Também não cabe julgar esse ou aquele formato de relacionamento, todas as maneiras possíveis de amar estão corretas, o amor nunca falha.

Vocês já se permitiram viver alguma aventura/momento sexual/amoroso diferente que lembra?
Bruno: Sim, nós temos um relacionamento aberto em que curtimos outras pessoas juntos. Já tivemos conflitos? Já, mas sempre tudo foi conversado, sempre “posto a mesa”. Chegamos já perto de ser um trisal, e esta é uma possibilidade que não descarto, por exemplo. Se a pessoa certa aparecer, porque não? Mas isso não descarta um trabalho de aceitação, de adaptação.
Cris: Antes de me relacionar com o Bruno eu fiz parte de um trisal, o que já me deu uma certa “experiência” pro relacionamento aberto que temos hoje.Como você vê o nosso período/contexto em que vivemos em relação a liberdade, empoderamento lgbt?
Bruno:
Essa pergunta… estamos em um momento complicado em que um “falso” moralismo pondera na sociedade. Ao mesmo tempo, temos grandes defensores dentro desta mesma sociedade e não só isso, também temos conseguido fazer uma voz mais forte frente a aqueles que não nos querem vivos. Sé o fato de já estarmos aqui, já é uma resistência, e assim uma imposição de respeito.
Cris: Nós fomos de um período de “liberdade” para um momento de ameaça. Isso de certa forma foi bom porque nós esquecemos muitas coisas do passado, que ligam a nossa luta hoje e reconhecemos quem está ao nosso lado na luta

Relacionamentos antigos de vocês, alteraram como são hoje e como se relacionam um com o outro?
Cris: Todo relacionamento é aprendizado, isso é fato! Vamos corrigindo erros do passado, baseado em experiências anteriores, e vamos cometendo novos erros também, porque são pessoas diferentes, relacionamentos diferentes e isso é natural. Então, dá pra pegar as lições aprendidas nos outros relacionamentos e saber onde temos que melhorar.
Bruno: As dinâmicas mudam bastante, mas é fato de que não é fácil nunca e nunca também podemos exigir a perfeição. Ela não acontece! Mas posso dizer que não posso ignorar o aprendizado. Já tive ótimos relacionamentos antes e também tive péssimos relacionamentos, e isso reflete que não somos pessoas que sempre acabam tendo que lidar com o diferente de maneiras diversas, pois ele reflete na maturidade do nosso relacionamento atual.

Como vocês se vêem no futuro?
Cris: Eu tenho muita dificuldade de pensar no futuro, e eu considero isso um defeito. Acho que sofri tanto na vida por criar expectativas demais que, hoje em dia, criei esse “bloqueio” e vou imaginando uma coisa de cada vez. Acordo e penso no café, pra depois pensar no almoço, pra depois pensar no lanche, pra depois pensar na janta… Vou pensando conforme as coisas acontecem pra me frustrar o mínimo possível caso não aconteçam. É importante deixar claro que em todos esses momentos que vou pensando aos poucos o Bruno está incluso. E, me contradizendo e pensando longe, que assim seja por no mínimo mais 50 anos.
Bruno: Eu já tive momentos em que pensei longe, mas eu prefiro um presente sólido a um futuro de expectativas que podem ser frustadas, mas isso não significa também que não vou criar-las. Mas sim as coloco em uma caixa de possibilidade, e foco no presente!

 

Cris: Eu gostaria de agradecer vocês, de verdade, pro projeto e por ter chamado a gente pra participar. O projeto de vocês é tão lindo e vocês mostrarem as pessoas como elas são, seus diferentes formatos, cores, tamanhos, texturas e sentimentos é maravilhoso demais! E eu, que nunca fugirei entre os “corpos perfeitos” me senti incluído, me senti representado e agora posso dizer que também represento. Obrigado por dar voz a todos por igual e por mostrar as pessoas como elas são. Eu fiquei feliz e emocionado de fazer parte de algo tão incrível como o projeto de vocês.
Bruno: Fico feliz de ver que cada dia mais temos vozes mais fortes e empoderadas. Isso mostra que não somos qualquer um, mas sim um grupo que luta por direitos, por nossa visibilidade como seres humanos, mostrando nossos lados cheios de defeitos e falhas, paixão, humanidade e em tudo isso beleza! Nunca me senti empoderado com o corpo na vida e vocês me deram essa chance, de ver que acima de tudo, somos belos como somos…como humanos!