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Bruno

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER 

02082018

Fotografei o Bruno em Fortaleza, há três anos atrás. Conheci ele enquanto fotografava o Isac. Seguimos para o parque do Cocó de ônibus, quando chegamos nos demos com o parque fechado. Encontramos uma fenda em uma das grades, atravessamos e fotografamos entre as árvores e folhas secas do parque, baixo um sol escaldante. Anos se passaram, e reenviei as perguntas que fiz na época, pensando na ressignificação tanto do tempo com o corpo, com a vivência de cidade e o cotidiano dele em Fortaleza.

“Ser gay pra mim é uma dádiva, acho que se eu fosse hétero eu ia ser uó, rs. não sei exatamente, não dá para eu imaginar como seria se fosse tudo diferente… mas pela minha criação de menino no interior em que fui acostumado a viver várias situações machistas e naturaliza-las, dá pra imaginar como seria mais ou menos o percurso.
Às vezes observo alguns comportamentos de homens héteros e fico a pensar como pode ser tão desnecessários (tipo ficar empinando numa moto e acelerando pegando corrida sozinho). Não tenho aversão pela heterossexualidade só acho falida essa figura inventada do ‘homem macho’. (…)”
“Trabalhei com uma companhia de Dança chamada Cia Dita, onde muito das investigações coreográficas partiam da sexualidade, do erotismo e do pornográfico. Dancei uma peça chamada Devir e outra chamada Corpornô, trabalhos totalmente diferentes, mas ambos tinham o corpo como ponto de partida para as investigações coreográficas, tanto na estética, na filosofia, nas questões sexuais e existenciais. Acho que foi rico passar por isso e me alimentar ao máximo dos discursos que nos fortalecem. Uma amiga que dança comigo escreveu isso uma dia e achei um máximo. “‘Corpornô’ é aquele tipo de trabalho que engrossa o couro de qualquer bailarino. É o constante exercício de não cochilar com os estados de presença, é estar bem resolvido com a sua plástica, é constantemente ouvir críticas positivas e negativas na mesma balança, é sempre enfrentar muitas pessoas te perguntando se o seu(a) parceiro(a) amoroso(a) deixa você fazer aquilo, o que pensa sobre, etc. É o bravo exercício de reafirmar sua escolha de fazer acontecer a dança que te burilar, seja ela qual for.”

“Namoro há uns 5 anos, mas já fui casado de morar juntinho e tudo. Acho uma delicia se relacionar, aprendo muito com isso, e também gosto da minha liberdade, mas é algo que sempre tento negociar junto todas as nossas escolhas. Entre furacões e calmarias a vida vai seguindo. (…) Outro dia ouvi isso de uma mulher, estava numa roda de conversa e um amigo soltou a pergunta “Você busca alguém que te complete?” e ela respondeu “Eu busco alguém que me transborde”. Roubei pra vida.  Acho que é isso, o amor é algo que transborda.”

“Como eu sou um homem cis, a minha imagem e a minha estética não é tão afrontosa aos olhos conservadores. De vez em quando sim, mas não cotidianamente. Isso não é uma escolha de sobrevivência, é só o meu jeito mesmo. Tenho tentado me empoderar e incorporar mais do feminino, por uma escolha de ser o que eu quero ser. Já aconteceu de eu ser xingado durante discussões, às vezes são piadinhas que saem como brincadeiras, mas vem recheadas de preconceito. Eu sinto mais em relação a minha cor, mas ainda não é nada gritante, tudo muito camuflado. Eu sempre tento despertar uma tensão para essas ignorâncias disfarçadas na sutileza. Mas acordo e sigo todos os dias pra vida.”

“Eu acho que a gente está vivendo um momento muito interessante e muito rico, apesar do conservadorismo mostrar as unhas e os dentes. Vivemos um momento de muitas rupturas, muitas vozes ecoaram e tão aí ocupando lugares importantes na mídia, na política, nos espaços artísticos. Trans, travestis, bichas, elxs tão aí, então é um momento muito bom pra que não haja tanto sofrimento para as gerações mais novas com relação a se assumir, não passar por tanto sofrimento ao se assumir, ao ser o que é ou o que quiser ser. (…) As pessoas não estão com tanto medo de expor a violência que elas sofrem e sofreram, eu penso assim. Mas ao mesmo tempo a gente tá partindo pra guerra, sabe, botando mais a cara no sol, sem medo de ser o que quiser ser. E acho que é isso que importa. É um momento pra encontrarmos a união coletiva, nos fortalecermos. Se juntas a gente já causa, imagina juntas.”