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Antonio

Fotografia: Rodrigo Ladeira

10122018

Conheci o Antonio na internet há um tempo. Nos perguntamos se éramos algum parente distante um do outro, uma brincadeira besta pela semelhança do nosso sobrenome. Ficamos uns meses conversando, de trocas rápidas sobre alguns stories até longas discussões sobre o que cada um estava passando. Nos encontramos rapidamente em dois momentos, uma em minha cidade e outra vez na cidade dele, o Rio. Em um momento, sentamos na mureta do comuna e enquanto comíamos um hamburguer, ele me contou mais ainda sobre si, pedi então que escrevesse tudo aquilo que estava sentindo e passando, e esse foi o resultado:

A gente passa os anos vestindo tanta roupa, tanta gente, tantos momentos, tantos lugares, que se esquece do que é tão somente nosso. Mas é tão bom, que deve ser parte da vida se perder. Faz nove meses que nos deixamos, um ao outro, para trás. Ainda que eu te olhe, nunca mais será com aquela paz, com a confiança de jamais seguir sozinho. Voltei a procurar meu lugar, a perguntar pro espelho onde é que há o pouco de mim que ainda eu tenha. Nesse exercício necessário eu descobri, em meio à monotonia e a melancolia, que não se retorna à estaca zero. Que eu nunca mais vou ser aquele que te olhou com tanto gosto. Que tudo se modificaria.

Eu. Fevereiro de 2015. Tinha 22 anos quando você me ensinou a andar de bicicleta, lá no Ibirapuera, e jamais o teria feito sem você. Também jamais teria ido à SP. Nunca iria descobrir a perfeição que é pedalar Central – Aterro – Urca – Leblon. Não teria sido obrigado a provar mate tantas vezes pra saber que não é bom. E então depois… nós lá em Curitiba, e é tão difícil, mas eu guardo o retrato e a canequinha.

 

Não usaria tanto um só colar, não furaria a minha orelha por furar, ou comeria tantos frutos do mar, mas bastava ter que íamos lá. Jamais que compraria meus patins, tampouco então te dado aquela trena, que você tanto larga por aí. Não saberia jamais cortar cabelo, ou saber como comprar um travesseiro depois de tantas porcarias já compradas. Não saberia dizer o que é ‘esquadria’; ‘átrio’; Lina Bo – até aonde que se iria o meu amor e até aonde eu estaria apaixonado.

Provavelmente, estaria ainda na casa dos meus pais, continuaria sem saber o que é ter gatos, jamais teria posto a mão num rato, como na casa do seu amigo eu faria. Duas festas surpresas, jamais planejaria, talvez por ter tanto cansaço, mas ali eu vi razões que antes não via.

Não teria passado a madrugada na orla deserta do Rio; ou comido no melhor japonês de Cabo Frio. Não saberia citar nem cinco ruas da Tijuca, quando hoje eu tenho o bairro mapeado. Não teria agora sobre a mesa o meu retrato, por você bem desenhado, os meus olhos a te olhar, eles brilhavam. Não teria te beijado no auditório da faculdade; dedicado XO, da Beyoncé, a qualquer um que fosse, num final de tarde que é passado. Também não me sentiria um tanto abandonado, mas quando se joga todos os dias o mesmo dado, não é sempre a mesma face a aparecer.

 

Não teria em quem descontar a minha raiva, a minha tristeza, o desconforto que sempre tive com o mundo. Não choraria agora no teclado, e não teria em mim todas guardadas, essas memórias que também me dão desgosto. Não teria flertado com o egoísmo, nem tentado a todo custo segurar o que, há muito, se teria terminado. Através dos pilotis da casa Butantã, eu jamais teria caminhado.

Se eu não esqueço dos olhares que tanto me lançava, da maneira que você me transpassava, é que talvez eu não queira me esquecer. Esquecer disso tudo é esquecer de mim e não só de você. O caminho que eu tracei desse teu lado calejou os pedaços do meu corpo que eu resolvi mostrar nesse projeto, que já há um bom tempo eu admirava. E no ápice da confusão na minha vida, com coisas que a cabeça não apaga, eu fui mostrar o que de mim tinha sobrado. Meio tímido. É que ainda sem digerir esse passado, fui posar sem jeito pros retratos, pois não sabia me mexer sendo esse resto, com o que você me deixou e eu segurei. Mas olhando para trás, tenho a certeza que eu te amei. Quase então entendo tudo o que houve, mas eu jamais teria tentado entender se não fosse você e a nossa sorte. Se não fosse sua ressaca aquele dia, a pulseira no calçadão de Copa, a feira do Lavradio… não fossem tantos sinais, como seria?

Hoje eu te olho e você é outro. Hoje eu me vejo e também mudei. Por um lado, eu não te desejo e, por outro, sei que eu já desejei.

Obrigado por fazer parte de mim,

Agora eu sei que não se volta à estaca zero,

Não há retorno para nada que está vivo.

Eu sinto falta, mas esperança eu também sinto,

Foi surreal nós dois e a casa, o labirinto;

Eu descobri que só se é depois de sê-lo.

Obrigado.