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Andre

31012019

Passei uns dias em Belo Horizonte, cerca de um ano atrás. Nessa viagem fiz alguns registros e um deles foi o do André. Ou na verdade, tentei fazer. Fui até a casa dele, começamos a conversar e fui registrando ele contando sua história. A bateria da câmera acabou. Pedi pra ele continuar contando, porque já estava completamente envolvido na história. Fomos começar a fotografar, seria meu segundo ensaio analógico. Quando percebi que havia esquecido o filme.

Alguns meses depois o Fábio foi para Belo Horizonte e aproveitou para remarcar com o André. No caminho da casa dele, a câmera estragou e não estava rodando mais.

Agora no fim do ano, foi minha vez de tentar novamente. Parece que muitas coisas precisam de um tempo, o André parecia falar de uma outra forma sobre as mesmas situações. O Brasil tinha um novo presidente e tudo pesava mais. E assim, fizemos todos os cliques e pedi pra ele me escrever o que sentia:

“Foi  em dezembro de 2014, que vim passar o final de ano em BH e naquele sábado um primo gay e seu namorado queriam que eu fosse conhecer o Revista Viva, mas um amigo bateu o pé que só sairia com o grupo se fôssemos ao Estação 2000, sou grato até hoje por essa insistência, pois foi assim que aconteceu o encontro que mudaria radicalmente a minha vida. Ele estava no Estação e passou por mim com um olhar sorridente e eu sem graça achando que não poderia ser comigo, houve aquela identificação imediata e mesmo com a diferença de idade, eu vinte anos mais velho, a potência desse encontro se confirmou nos eventos que se seguiram. Nascido em BH, mas radicado no interior de SP por longos anos, decidi fazer o caminho de volta e em janeiro de 2015 me inscrevi no concurso para professor na rede estadual de MG, já tendo bastante clara a decisão de me estabelecer novamente em terras mineiras. O ano transcorreu com a intensa ponte rodoviária interior de SP x BH, já que a cada quinze dias eu desembarcava por aqui para estar mais perto dele. O concurso aconteceu, havia indicado a cidade de Brumadinho, já que não havia vaga para BH naquele momento, passei em primeiro lugar para as quatro vagas existentes e a volta à terra natal estava consolidada. Relacionamento a distância requer persistência, presença, sobretudo confiança, e todos esses fatores reunidos fizeram com que nossa história desse certo, nos moldes que estabelecemos, sem cobranças, respeitando a individualidade e o espaço de cada um. Em janeiro de 2016, deixando dois cargos públicos, casa e uma vida estabilizada chego em Brumadinho para viver dois anos de intenso crescimento e aprendizado, o namoro a distância continuou, pois duas horas de ônibus me separavam de BH e nos víamos basicamente aos finais de semana, sendo Brumadinho uma cidade dormitório ao longo desse período.”

“Até tudo isso acontecer eu vivi durante muito tempo a minha sexualidade de forma reservada e reprimida, com uma forte homofobia internalizada, ter conhecido ele foi um divisor de águas porque passei a me sentir mais livre, absolutamente em paz e reconciliado com meu ser por completo, sem amarras, sem me preocupar com o julgamento alheio e assumindo o protagonismo do meu desejo, o que foi sendo construído e consolidado ao longo desses anos. Depois de algum tempo juntos, por um pedido dele, abrimos o relacionamento, duas coisas inéditas pra mim até então: o tempo que já estávamos juntos, que foi recorde de outras relações que ambos tivemos, e a experiência do amor livre. Essa nova configuração gerou uma demanda que trouxe um elemento fundamental, ao meu ver, para sobrevivermos a esses tempos de amor líquido, fluído e mais imediatista: a autonomia emocional! A monogamia tem sido cada vez mais questionada e por vezes rechaçada enquanto elemento repressor e limitador de experiências que ampliem e expandam as possibilidades de crescimento pessoal. Ciúmes? É claro que ele aparece nesse processo, não pela ideia da posse, porque absolutamente não pertencemos uns aos outros, pelo menos pra mim ele teve mais ligado a qualidade e quantidade do tempo dedicado a nós do que propriamente o fato de saber que havia outro, ou outros, esse foi o ponto mais sensível na minha experiência. E é nesse momento que entra a tão propalada e almejada autonomia emocional, que em boa medida significa bastar-se a si, ser uma boa companhia pra você mesmo e não imputar ao outro a responsabilidade pelo seu bem-estar. Sim, um enorme desafio, que eu abracei e continuo evoluindo nesse propósito.”

“O relacionamento terminou em abril desse ano, a experiência a dois chegou ao limite, por vários fatores, quando eu já havia me mudado definitivamente pra BH, transferindo meu cargo, exatamente três anos, três meses e três dias depois de nos conhecermos. “Três”, de alguma forma esse número foi importante pra gente na perspectiva da existência do outro além do casal, o terceiro elemento, fator de equilíbrio e desequilíbrio, e da independência afetiva. A amizade entre nós continua até hoje e nunca deixará de existir, o que era tesão deu lugar a um afeto genuíno e à possibilidade de olhar com generosidade para nossa história, que foi importante para ambos crescermos e que durou o tempo que deveria durar, o tempo suficiente para compreender que vale a pena se abrir para o novo, deixar para trás velhos paradigmas, agregar novas experiências e aprendizados sem medo do vazio existencial, peculiar a cada ser, e nem da solitude.”

Sou professor, gay e livre!

“Fazer esse ensaio, expor-me de forma plena é muito significativo e importante nesse momento, pois consolida essa ideia do ser inteiro e integral que se revela isento de quaisquer convenções e limites impostos por uma sociedade cada vez mais conservadora e burra no mais amplo sentido.”