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Alison

29042019

No fim do ano, fui passar alguns dias em Belo Horizonte. Nesse período, acabei conversando com o Alison por instagram e decidimos conversar e realizar as fotos. Já que não tínhamos muitas opções de lugares na cidade, ele sugeriu uma cachoeira que havia ido há pouco tempo com alguns amigos. E lá fomos juntos, algumas horas de carro, pula cerca, passa embaixo de arame farpado, caminha uns 30min e chegamos na cachoeira. Entre momentos de muito Sol e muitas nuvens fomos fazendo os cliques, até que chegaram três homens pedindo nossa saída da propriedade. O ensaio ficou sem finalizar, mas de qualquer modo, conseguimos alguns cliques que me deixaram muito felizes.

Pedi para o Alison me contar um pouco sobre si, sobre sua história: “Recentemente, a apresentadora de um podcast (Mamilos, indico), a Cris Bartis, disse que topou muitas coisas na vida profissional e afetiva dela não por vontade ou coragem, mas por inocência, por não saber a dificuldade ou os riscos envolvidos. Ela só “foi fono”. Grande parte da minha vida também foi assim, inclusive ser gay. Hoje em dia, olhando pra trás, eu sei que eu sempre soube que era gay, mas eu demorei muitos anos pra entender o que significava ser gay.

A princípio eu não entendia, por exemplo, que ser gay significava que eu não teria uma família tradicional com esposa e filhos. Eu notava que algo era diferente, que eu achava os meninos bonitos, sentia atração, mas eu não elaborava mais do que isso. Era só isso. Eu continuava repetindo os padrões heteronormativos que eu tinha como modelo, eu queria ficar com as meninas. Mas também não ficava por que eu era muito inseguro e tímido, eu era muito magro, pequeno e com olhos desproporcionalmente grandes, além de afeminado.

A internet me deu um outro modelo do que era ser gay. Com uns 14 anos, eu comecei a pesquisar (escondido) na internet sobre ser gay, comecei a ler livros (em pdf) e ver filmes, tudo com temática LGBT. Ali eu entendi que homens gays tinham relações sexuais e afetivas com outros homens. Mas de maneira geral a imagem que eu tinha sobre ser gay nessa época tava atrelada à promiscuidade e busca por padrões de beleza, tipo Queer as folk, e era isso que eu buscava (hoje em dia eu só queria ser o aquele casal de sapatão <3). Com 15 anos eu tive minha primeira relação sexual, com um cara muito mais velho que eu conheci no bate papo UOL. Ele foi um bosta comigo e depois disso eu não quis me relacionar de novo pelos próximos 2 anos. Eu, uma bixinha toda romântica, tive minha primeira vez com um maromba de academia 7 anos mais velho que nem me beijou. Foi bem ruim.

Com o tempo, eu fui elaborando melhor a ideia do que era ser gay, fui me descobrindo e entendendo as implicações de ser gay. E aos poucos fui conseguindo me abrir novamente pra ter outras relações, mas tudo bem superficial e efêmero. O que me fazia bem mal quando eu me comparava (um erro) com minhas amigas hétero. E isso tinha uma relação direta com minha visão sobre mim. Eu não me achava bonito (não era tão pequeno, mas continuava muito magro e achava meu rosto bem desproporcional – e a beleza está na proporção, né?), não me achava atraente e nem interessante. Eu tinha vergonha de trocar de roupa na frente das pessoas (sobretudo dos meninos), não usava regata e nem sunga, só nadava de bermuda (o Alison de 10 anos atrás acharia impossível, maluquice, fazer um ensaio nu). Consequentemente, eu achava também que ninguém se interessaria por mim, porque eu não era alguém gostável. Quando acontecia de alguém se interessar eu não pensava se eu me interessava de volta ou não, eu já estava tão grato por alguém me querer que era irrelevante eu querer de volta. Seria pedir demais!

Isso durou muitos anos. Minha auto-estima vem melhorando de uns 5 anos para cá (eu tenho 28), mas é muito recente (pouco mais de um ano) eu conseguir me olhar no espelho e me achar bonito, de gostar do que eu vejo. Isso por que nesse tempo, eu comecei a cuidar de mim por mim e não pra atingir um padrão ou agradar alguém. Tenho cuidado do meu corpo, da minha alimentação, da minha saúde, da minha pele, do meu cabelo e, sobretudo, da minha saúde mental. Isso tem sido fundamental pra eu ter uma boa relação com o meu corpo atualmente. Mas não é uma relação sólida, continuo tendo dias que me sinto mal comigo mesmo (quem nunca?). Agora se eu fico com alguém é porque eu quero ficar com esse alguém e não porque esse alguém é a minha única opção. Isso era inimiginável pra mim há 10 anos atrás. Eu achava que eu só ia ser desejado se eu atingisse um padrão físico e estético do homem másculo e malhado. Agora não, minha visão sobre relacionamentos mudou. Todo corpo é passível de ser desejado, mesmo que a nossa socialização nos faça acreditar que não. A gente precisa primeiro se desejar e se achar desejável,  depois parar de desejar também só quem estiver dentro daquele padrão. Precisamos ampliar o olhar pra ver beleza nos corpos diferentes. Ver beleza no que tá além do corpo é uma atividade libertadora e dificílima.

Acho que por causa dessa minha ingenuidade, inocência e ignorância eu não me vi em muitas situações de preconceito. A relação dentro de casa sempre foi ótimo. Me assumi pros meus pais, familiares e amigos mais próximos durante a adolescência. Tive três namoros, todos em casa, eles frequentavam festas de família e casa de parentes. Nunca sofri nenhuma agressão física. Numa leitura rasa eu poderia achar que isso é um sinal da sociedade moderna e igualitária que viemos. Mas não precisa de muita atenção pra notar todas as agressões veladas que sofri. Uma vez estava com meu primeiro namorado no estacionamento do condomínio de uma amiga, o porteiro pediu pra que parássemos de nos beijar, disse que um morador havia reclamado. A mãe dessa amiga, interviu e disse que era um absurdo, que outros casais namoravam nas áreas comuns do condomínio e nunca houve reclamações sobre eles. Poderia ter sido uma situação extremamente constrangedora ou traumática, mas o suporte que eu tive foi muito mais importante. Sempre esteve claro que eu não estou sozinho. Nunca ouvi, dentro de casa, que existe algo errado comigo ou outros gays, mesmo antes de sair do armário. Então quando eu ouço na rua, não me atinge, justamente por eu ter esse apoio. Tenho consciência do tamanho do privilégio que eu tive tendo tanto suporte e tento retornar isso sendo o mesmo suporte para as pessoas LGBTs ao meu redor.

Nunca tive vergonha e só uma vez chorei por ser gay (quando eu pensei que minha mãe ia ficar triste – mas passou rápido), devo isso à rede de apoio muito forte que eu tenho com meus amigos e familiares. Hoje em dia eu vejo ser gay de uma forma não só afetiva e sexual, mas também política (e coletiva), que eu ainda to só arranhando a superfície. Queria não ter medo de andar de mãos dadas em ruas vazias ou receio de beijar meu namorado na despedida antes de entrar no ônibus (porque eu não sei o que vai acontecer depois que nos separarmos). Mas isso não me impede de continuar tentando viver minha vida e minhas relações da forma mais natural possível. Nunca vai ser algo comum se alguém não der a cara a tapa (prefiro não levar os tapas, mas tô botando a cara).”